Sobre BUTTER
Minhas divagações sobre o livro de Asako Yuzuki
Muito antes de me interessar por comida, foi a leitura o objeto do meu entusiasmo. Mesmo antes de saber ler, eu fingia ler panfletinhos de caixa de CD, recitando as músicas que sabia de cor. Quando aprendi, lia esfomeada tudo que encontrava pelo caminho, placa na rua, letreiro de ônibus, rótulo de shampoo. O próximo estágio de evolução foi o gibi, inicialmente devota da Turma da Mônica, até finalmente me abrir a outras produções, como Tio Patinhas. E então vieram os livros. Li avidamente, continuamente, e às vezes, mesmo sem entender. Li para combater o tédio, para recuperar o tempo perdido, li para aprender e desaprender, para fazer sentido da vida ao meu redor, e para descobrir que o mundo era maior do que eu conseguia enxergar. Com altos e baixos, como é o próprio ritmo da existência, sorrio em pensar em mim mesma como leitora.
Quando me encontrei com a gastronomia, voltei o foco da minha prática de leitura para tudo que envolvesse comida. Teve muita não ficção no menu, um impulso de aprender sobre ingredientes, sobre o sistema de produção de alimentos, sobre agricultura, sobre hospitalidade, sobre técnica. O impulso da mente curiosa, com muita noção de tudo que há para ser aprendido, mas está há muitos anos fora da sala de aula.
Esse ano, no entanto, decidi que faria um retorno para ficção. Me deu saudades daquela sensação vertiginosa de mergulhar em uma história. Um romance que todo mundo da minha bolha gastronômica aqui nos EUA parecia estar comentando era o Butter: A Novel of Food and Murder, da autora japonesa Asako Yuzuki. Publicado originalmente em 2017, o livro ganhou uma tradução para o inglês em 2024 e foi comercializado como uma história de true crime com um pano de fundo gastronômico. A premissa é a seguinte: Rika Machida, uma jovem jornalista que trabalha para uma revista semanal, quer fazer uma reportagem sobre Manako Kajii, uma mulher acusada de seduzir homens mais velhos com seus dotes culinários e finalmente assassiná-los. Porém Kajii, presa enquanto aguarda pelo seu julgamento, se recusa a falar com a imprensa. Seguindo a sugestão de uma amiga, que astutamente observa o grande interesse culinário de Kajii registrado em seu blog pessoal, Rika usa a comida como ponto de conexão para iniciar um contato com a suposta assassina com a intenção de que essa relação desse espaço para uma entrevista.
O livro se inspira em uma história real, mas a natureza true crime do romance para por aí, na minha opinião. Butter, é na verdade, uma história sobre comida enquanto uma ferramenta potente de auto descoberta e de conexão, tendo como pano de fundo essa história de assassinato. A narrativa critica os parâmetros duros que regem a sociedade japonesa, ressaltando problemas como a gordofobia e as expectativas de gênero – afinal, toda ferramenta pode se tornar uma arma, dependendo de como é usada. Se já não deu para perceber, eu recomendo e muito a leitura, e quis compartilhar alguns dos meus trechos favoritos que colocam a experiência alimentar no centro - o comer, o cozinhar, o compartilhar de uma refeição.
As interações com Kajii desafiam Rika a mudar a maneira como ela come e pensa sobre comida. Antes, comer era permeado pela necessidade de ingerir apenas a quantidade de calorias necessárias para continuar trabalhando e vivendo de maneira a se encaixar nos padrões restritos de beleza impostos pela sociedade japonesa. O desejo de compreender Kajii de maneira um pouco mais profunda faz com que ela aceite as suas provocações e passe a comer buscando prazer, além de sustância. A primeira missão? Simples: preparar arroz e saboreá-lo com shoyu e manteiga. Sobre esse último ingrediente as instruções são claras – nada de substituir ou miguelar, só manteiga de verdade seria considerada para o experimento – “Existem duas coisas que eu não tolero: feministas e margarina”, afirma Kajii.
A descrição da experiência de Rika ao provar esse prato simples é poderosa e declara a missão da narrativa. Após descrever o preparo, a narrativa te leva para dentro das sensações da personagem ao prová-lo:
A primeira coisa que Rika sentiu foi uma brisa estranha emanando do fundo da sua boca. A manteiga gelada foi primeiro ao céu da boca de maneira refrescante, contrastando com o arroz fumegante, em textura e temperatura. A manteiga fria ia de encontro com seus dentes, e a sensação da textura subia até pela raíz deles. Logo, como tinha dito Kajii, a manteiga derretida passou a se revelar em cada grão de arroz, individualmente. Era um sabor que só pode ser descrito como dourado. Uma onda dourada, com uma profundidade de sabor surpreendente e um aroma tênue, porém pleno e completo, embrulhava o arroz e levava o corpo de Rika para longe.
Descrever sensações do paladar e do olfato pode ser desafiador, mas Asako Yuzuki o faz de maneira cirúrgica e maestral. Para além de descrições técnicas, o foco é a experiência do comer como esse ato que nos devolve para os corpos que somos, apesar daquilo que somos além deles – filhos e filhas, mães ou pais, profissionais bem ou mal sucedidos, felizes ou tristes, adequados ou inadequados de acordo com a sociedade da qual fazemos parte. A jornada de Rika se iniciar aqui marca para mim a tese de que o impulso de conhecer e entender o outro começa com um olhar honesto, aberto sobre si mesmo: não há como entender Kajii ignorando partes tão essenciais dela mesma.
Apesar do livro abrir espaço para refeições em restaurantes, me peguei envolvida na evolução de Rika como cozinheira–primeiro para si, depois para outros. Se de início ela se via desajeitada na cozinha, com a prática ela vai se surpreendendo com a capacidade de produzir, ela mesma, algo delicioso, que mata não só a fome como a vontade de comer. Após um dia de trabalho intenso na revista, Rika prepara um prato chamado Massa Tarako, um prato simples de macarrão com uma emulsão de manteiga, ovas de peixe e shoyu, servido com folhas de shissô.
Com o objetivo de eliminar todos os pensamentos sobre o problema, Rika mastigou enfaticamente os fios de macarrão cheios de sabor. O sabor vibrante e refrescante das folhas de shissô estimulavam seu apetite, e ela se pegou soltando um “ummm” de satisfação. O fato de que ela mesma tinha criado esse sabor enriquecia o momento.
Isso bastou, pensou ela, para experienciar uma satisfação de um tipo que ela nunca havia sentido antes. Preparar algo que você queira comer para si mesma e comer da maneira como gostaria – seria essa a essência da gratificação? Até muito pouco tempo, ela não tinha ideia nem do que queria comer, mas desde que começou a usar sua cozinha, ela estava se tornando capaz de imaginar, mesmo que vagamente, os objetos dos seus desejos.
Essa passagem me marcou por uma identificação quase nostálgica, de um momento de descoberta da minha capacidade de produzir, com minhas próprias mãos, algo que era delicioso. No vai e vem da vida, que nos puxa em todas as direções possíveis e muitas vezes nos implora para ignorarmos até as nossas necessidades mais básicas, a capacidade de tomar um tempo e preparar um bom prato de comida para si mesmo é, de fato, revolucionário. No caso de Rika, cozinhar é uma exploração de gosto e desejo. A autonomia do preparo lhe dá a liberdade não só para identificar o que quer comer, mas como se expressar na maneira que escolhe degustar o prato à sua frente.
Sem revelar muito da história do livro, quero ressaltar uma terceira cena culinária que acontece bem no final. Rika resolve cozinhar para um grupo de pessoas um prato de origem estrangeira, que por suas proporções físicas, só faz sentido ser preparado para ser partilhado. O preparo leva dias e é fonte de ansiedade e preocupação para a jovem cozinheira. Será que o resultado vai ser comestível? Será que vai agradar os convidados? Há quem diga que nunca se deve servir algo não testado para convidados, mas honestamente é a adrenalina de não saber o resultado que me motiva a encarar projetos mais ambiciosos. A refeição é servida em um ambiente pouco mobiliado, mas a falta de infraestrutura é compensada pelo acolhimento e o entusiasmo do grupo de experienciar um prato novo. Logo estão todos provando e dando suas opiniões, o prato sendo degustado como uma das poucas coisas em comum entre as pessoas daquele grupo. A refeição é exitosa não só pela qualidade do preparo mas também por ser uma expressão do estilo de vida que a protagonista deseja viver, com abundância de comida e companhia, mesmo em um mundo que privilegia outros marcadores de sucesso.
Butter me fez companhia nesse momento em que me pego com mais apetite por histórias do que por comida em si. Mesmo que na minha cozinha eu não esteja indo muito além do arroz e feijão, ler Asako Yuzuki e a maneira específica e cuidadosa que ela descreve a comida me lembrou o poder que histórias têm de nos trazer de volta para nós mesmos. Meu eu leitora vai me nutrir até o meu eu cozinheira voltar para mim.



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